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Os Trópicos Têm Poros

por Cristiana Tejo

2026

Texto curatorial e catálogo Exposição individual Os Trópicos Têm Poros - Museu do Observatório Geofísico e Astronômico da Universidade de Coimbra

Poucos dias depois da nave espacial Artemis II alcançar o lado oculto da Lua, abrimos esta exposição. Graças a esta viagem, agora temos imagens da chamada “face oculta”. Sabíamos que essa face não vive na escuridão e que ela recebe luz como qualquer outra, porém o que nos faltava era vê-la. O invisível, portanto, não era ausência, mas a posição. Essa distinção é importante porque desloca o problema da observação, pois percebemos que ver não depende apenas daquilo que está diante de nós, mas das condições que tornam algo visível. As imagens capturadas pelos astronautas também nos mostram mais detalhes da superfície da lua, suas texturas, acidentes e marcas que nos remete à pele humana. Isso não deveria nos surpreender, pois como dizia Carl Sagan nos anos 1980, “somos feitos de poeira de estrelas.” A frase condensa o dado científico fundamental da continuidade material entre o cosmos e o corpo, mas também introduz uma tensão, pois aquilo que está a uma distância incomensurável participa daquilo que somos. O macro e o micro deixam de ser categorias opostas para se tornarem escalas de um mesmo processo, de um continuum. Olhar para o cosmos é olhar para nós.


A pesquisa de Lilian Walker insere-se precisamente nesse ponto, ao conectar poeticamente o que as categorizações científicas afastam. Partindo de uma investigação sobre o acervo do Observatório Geofísico e Astronómico da Universidade de Coimbra, seus instrumentos, mapas, cartas celestes e imagens técnicas, a artista não recusa esses sistemas, mas tensiona suas premissas, introduzindo neles aquilo que lhes é estruturalmente instável: o corpo. Numa instituição que foi historicamente organizada por dispositivos que ampliam, medem e registram (telescópios, lunetas, círculos meridianos, quadrantes, globos, fotoheliógrafos), forjando uma tradução do mundo, a artista tece com seus trabalhos feitos especialmente para o espaço, ressignificações de sua coleção e missão.


A exposição organiza-se em três momentos que correspondem, de forma não linear, a três operações fundamentais da ciência moderna: observar, sistematizar e transmitir. Na primeira sala, a observação aparece como desejo de apreensão do mundo. Cartografia, astronomia e geodesia constituem formas de ordenar o espaço e situar o sujeito em relação a ele. No entanto, esse campo é atravessado por uma outra superfície: a epiderme, seja no âmbito visual ou no tátil. Na Série Crosta, fotografias de peles fundem-se à tinta transformando-se visualmente em nebulosas e outros fenômenos cósmicos. Situadas entre os globos celeste e terrestre, as pinturas assumem um caráter síntese dessa interconexão. Já em Cosmologias do Toque, constelações visíveis apenas no hemisfério sul, como Crux, Ara, Tucana e Mensa, são materializadas com materiais orgânicos como sementes e resina tornando-se acessíveis ao toque. A distância que separa o céu do corpo é reduzida, portanto, por contiguidade material.


A série Latências Meridianas introduz um outro tipo de inflexão. Termos associados à medição - escalas, estruturas, conduções, inscrições - reaparecem como formas que não se estabilizam completamente. Instaladas em vidros dos gabinetes que armazenam instrumentos de menor escala, as obras dialogam individualmente com cada conjunto e reencantam suas funções. Ao cobrirem partes das vitrines, elas acabam por evidenciar a operação de tornar visível, deslocando a ideia de medida como fixação para a de inscrição como acontecimento. A observação deixa de ser apenas um gesto óptico. Ela passa a implicar o tato, a proximidade e a irregularidade.


Na segunda sala, a questão da tradução torna-se central. O pneumógrafo, instrumento concebido para registrar a respiração, transforma um processo contínuo e instável em grafia. Ritmo, pulsação, fluxo, o que pertence ao interior do corpo é convertido em linha, em código, em métrica. A instalação En Plein Air apropria-se dessa função subvertendo-a. Ao envolver o visitante em um sistema que captura o movimento corporal e o traduz em desenhos, a obra resiste à estabilização completa.


Na terceira sala, a questão desloca-se para a transmissão do conhecimento. Instrumentos como o sextante e a luneta remetem a uma pedagogia da observação, enquanto a mesa do professor indica a institucionalização desse saber. O conhecimento deixa de ser apenas produzido para ser também compartilhado, organizado e legitimado. Os Magnetogramas introduzem uma dimensão crítica. Radiografias do corpo — imagens produzidas por dispositivos técnicos — são atravessadas por campos magnéticos e limalha de ferro, tornando visível um interior que, no entanto, não se apresenta como transparente. O visível não coincide com o inteligível. Ver não garante compreender. Ao incluir trabalhos realizados com utentes da ACAPO, em workshop conduzido pela artista, a exposição desloca ainda mais o regime de visibilidade dominante, afirmando que o conhecimento não depende exclusivamente da visão, mas de uma multiplicidade de experiências sensoriais. Algumas obras podem ser tocadas, o que desestabiliza um princípio central da tradição científica: a separação entre sujeito e objeto como condição de objetividade.


Ao reintroduzir o corpo, não apenas como objeto, mas como operador, o trabalho de Lilian Walker tensiona o próprio fundamento da observação científica. A porosidade, indicada no título dessa exposição, não é apenas uma metáfora formal. Ela indica um modo de pensar superfícies como zonas de troca, de passagem e de contaminação. O corpo e a Terra deixam de ser entidades separadas para se tornarem campos atravessados por fluxos, materiais, energéticos, simbólicos. Pensar a partir dos poros implica abandonar a ideia de limites fixos e reconhecer que todo sistema, seja científico, geográfico ou corporal é atravessado por aquilo que não controla completamente. Entre o céu e a pele, entre o dado e a matéria, entre o visível e o que insiste em escapar, a exposição nos lembra que observar nunca foi apenas ver. É sempre também uma forma de se implicar.

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