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Gesture of Analysis

por Stephanie Wruck

2025

Texto curatorial da Exposição Gesture of Analysis - Project Room - Galeria Coletivo Amarelo Lisboa

“O que é tão maravilhoso — de fato, quase mágico — em nosso cérebro é que conseguimos perceber um objeto a partir de informações incompletas, e reconhecê-lo como o mesmo sob condições de luz e contexto surpreendentemente diferentes.” 

— Eric R. Kandel, Reductionism in Art and Brain Science


Quando o neurocientista e professor universitário Eric R. Kandel decidiu aproximar as artes e as ciências em seu livro Reductionism in Art and Brain Science, abriu um vasto campo de possibilidades para compreender como experimentamos a arte abstrata. Dois mundos  – antes vistos como distantes, até opostos  – passaram a se revelar como gêmeos não idênticos, compartilhando mais semelhanças do que poderíamos imaginar.


Mágico  – talvez não haja palavra melhor para descrever o ato de aproximar-se de uma pequena obra, em uma pequena sala, e perceber que nosso cérebro está constantemente tentando preencher as lacunas do que vê. Esse mesmo gesto acontece na micro exposição “Gesto de Análise”, que apresenta os trabalhos da artista brasileira Lilian Walker. Artista visual, pesquisadora e educadora, Walker expande sua prática para além do desenho e da instalação, operando em diferentes materiais e escalas: cera derretida sobre tela plástica, pinturas texturizadas de peles animais sobre azulejos encontrados e desenhos em acrílico que evocam paisagens a partir de imagens microscópicas de tecidos da pele.


Este novo conjunto de trabalhos, apresentado pela primeira vez, convida o público a realizar um ato de observação controlada, tensionando a chamada “estética do laboratório”. Sua investigação sobre os limites do corpo  – e sobre a pele como superfície mutável, abrigo e interface  – aproxima-se do impulso científico de observar, classificar e reduzir. No entanto, em sua prática, esses gestos se transformam: o ato de ampliar torna-se gesto de curiosidade, de ternura, de cuidado. A exposição reconfigura o espaço que ocupa, explorando a estética da observação científica – amostras, imagens histológicas, azulejos como espécimes – tudo reinterpretado através de uma lente artística e sensorial.


Nas palavras de Kandel, a percepção nunca é passiva; é um diálogo entre o que vemos e o que já conhecemos. Diante das superfícies ambíguas de Lilian Walker – pele ou paisagem, pelo ou terreno – nosso cérebro vasculha seu arquivo de memórias, imagens e sensações para decifrar o que está diante de nós. Cada espectador traz uma constelação distinta de referências para esse ato de reconhecimento, transformando o olhar em um exercício de lembrança. Assim, o trabalho de Walker espelha e amplia o diálogo com as investigações de Flavia Regaldo sobre paisagem e mapeamento: ambas operam nesse espaço instável entre o que se observa e o que se sente, onde a própria percepção se torna um campo de investigação.

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