Aqui, ali, acolá, além, ...
por Rita Gaspar Vieira
2026
Texto catálogo Exposição individual Os Trópicos Têm Poros - Museu do Observatório Geofísico e Astronômico da Universidade de Coimbra
Os advérbios de espaço enunciados apontam o espaço físico a partir do contexto situacional, indicando proximidade ou afastamento do locutor. Através deles, aproximo-me aqui, com recurso à palavra, da exposição intitulada Os trópicos têm poros, de Lilian Walker, apresentada no Museu do Observatório Geofísico e Astronómico da Universidade de Coimbra e das antíteses que ela encerra em si.
Começo por destacar que a obra da artista confirma a sua existência e afirmação neste espaço e contexto concreto perante a presença de um público, os espectadores que lhe permitirão o alcance da posteridade[1] e que aqui, permitem situar a obra e a própria artista. Há, desde logo, uma questão de escala convocada por estas obras para a leitura do real e da sua representação que elas propõem. A escala e a distância da artista e do seu discurso face ao real medem o aqui e o além do tempo e do espaço. Neste projeto ela apresenta obras de grande e de pequena dimensão, acentuando o convite e a necessidade de cada espectador se aproximar ou se afastar do trabalho para o ver e perceber.
Perante a experiência desta visita e do que nela pude sentir face à presença desta exposição, que se mesclava com o Museu e o seu património, destaco algumas questões que me aparecem como determinantes, sendo uma relativa à simultânea reivindicação de abrangência de espaço e de tempo, quer por parte do Museu, quer oriundas do discurso da artista. Ambos reclamam proximidade e atenção, requerendo-as para a visita ao espaço e às obras nele instaladas.
O aqui, relaciona-se diretamente, neste projeto artístico, com o além, que projeta a sua leitura para lá de fronteiras territoriais e temporais, associando-se à vocação do espaço museológico que ocupa. Ou seja, este projeto artístico foi construído a partir de uma relação afetiva de proximidade e de construção de vida diária, sendo resultante da vivência quotidiana da artista no próprio Observatório Geofísico e Astronómico da Universidade de Coimbra, que passou a designar de casa. Nele, a Lilian experienciou o toque e a proximidade de um espaço e de dispositivos preparados para investigar e para convidar a ‘ver ao longe’, no espaço e no tempo, tendo desenvolvido obras específicas para circundar, tocar, integrar e interrogar os mesmos. Vejam-se obras como Auscultorium, que evoca uma luneta paralática aludindo a uma observação distante, espectável neste observatório, que aqui surge como um convite ou um instrumento de escuta que se efetiva por proximidade, sendo o seu som ativado pela presença e aproximação do espectador. A série intitulada Latências Meridianas invade, ocupa e mescla-se com o acervo científico ali preservado, surgindo mesmo instalada no interior de quatro armários do museu, cujos conteúdos evocam a métrica e o registo do corpo. Aqui, corpos celestes distantes são postos em diálogo com os corpos humanos que os observam, medem, estudam e nomeiam. Neste museu, quem entra é convidado a observar uma dimensão maior da geografia terrestre, que abrange mesmo a astronomia, o estudo científico e com eles, a mostra de peças ou dispositivos que, ao longo da nossa história de evolução do conhecimento científico, nos foram permitindo aproximar de modo, cada vez mais profundo, mais detalhado e rigoroso, de um maior conhecimento do universo. O percurso sugerido no museu faz-se no espaço e no tempo, convidando a uma reflexão sobre o presente, apoiada pela observação direta e por um conhecimento mais alargado sobre o passado, relativo à longevidade ou ao alcance temporal que engloba a investigação científica e a própria historiografia da sua duração. As obras da artista instaladas no espaço, são aqui interjeições e possibilidades de perceber e sentir um ‘intervalo maior’. Elas são extensões físicas e temporais do mesmo.
Outra questão que destaco, é referente à convocação do sentido da visão e à sua aparente primazia, considerando ser espectável usá-lo como dominante numa deslocação e visita a um observatório e a uma exposição de artes visuais, na qual a pintura se oferece como disciplina dominante. Neste caso, entrando ali, na exposição instalada naquele lugar, podemos perceber que a referência aos poros, presente no título da mostra, pode ser entendida como uma clara alusão a uma dimensão háptica requerida pela obra da artista, que se adiciona ao espaço. Nele a Lilian inseriu e mesclou obras como as da série que intitulou de Cosmologias do Toque. Campo Austral, constituídas por superfícies táteis, realizadas através da imersão de sementes nativas da Mata Atlântica, numa matéria de aparência metálica, que remete ao latão e aos instrumentos científicos de observação ali presentes. As obras apelam ao toque que nelas é permitido. E a essa dimensão do tato, associa-se a pequena dimensão destas obras, a escala de proximidade que evocam e o convite à experiência do toque da pele e de uma dimensão háptica. Efetivando o jogo de antíteses que antes referi, numa das salas principais do museu, opõem-se-lhes uma série de pinturas, a óleo sobre tela e fotografia impressa, de grande formato que requisita movimentos do corpo do espectador no espaço, porque se oferece a uma visão distante, Eluvial, Coluvial e Aluvial, da série Crosta. Ali, nas telas de grandes dimensões, pensadas especificamente para o contexto do museu a partir da pele de um homem brasileiro, a ampliação define a pintura como ativação de um campo cartográfico, no qual manchas, tons e pigmentos sugerem novamente aproximações e distanciamentos entre a visão terrena e a celeste convidando a descobrir elementos, muitas vezes, impossíveis de ver a ‘olho nú’; pondo em diálogo e em questão o próprio sentido da visão, que, ora se faz sentindo e tocando o que está próximo, ora se constrói a partir da distância que clarifica e esclarece ou informa sobre um todo. Delas, resulta a construção de mapas, topografias ou até mesmo, de imagens celestes. Ali a artista começa a convidar-nos para uma viagem, que sempre se faz de modo singular no percurso de cada um.
Acolá e além, sendo advérbios de espaço que indicam um percurso de afastamento face a quem profere um discurso, apontam nesta exposição, para um espaço de transição entre a luz e a sombra. Na exposição a luz é alterada, condicionada, limitada, reduzida ou direcionada por focos que a fazem incidir e destacar objetos, imagens, cores e texturas, permitindo e agenciando aproximações e afastamentos entre mapas terrenos, locais, corporais, concretos e particulares e os que, de tão distantes, mas essenciais e ancestrais, partilhamos em diferentes geografias e tempos. Estes são relativos à junção dos advérbios de espaço enunciados. Além, os trópicos não mais permitem situar uma geografia física, mas antes são indicadores de um caminho de procuras, hesitações e erros com os quais a Lilian apreende o mundo através da sua expressão artística. Além vai a inquietação que se faz ver e sentir na pele porque está a acontecer.
Aqui, ali, acolá, além...
Aqui, neste lugar de confluência entre a razão e a emoção, ali, naquele ponto dialético entre o corpo e a obra, acolá, onde a luz se propaga e a sombra se vai moldando e deslocando e além, num horizonte de expansão da própria existência; a emoção[2], boa ou má, inquietante e ativadora, possibilitada e gerada pela arte e, em concreto, pelas obras de Lilian em Os trópicos têm poros, é atuante e transformadora, permitindo novas possibilidades de construção individual, que não conhecem fronteiras de tempo ou de lugar.
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[1] Cf. Duchamp, M. (1975). The Creativ Act. London: Thames and Hudson Ltd.
[2] Cf. Didi-Huberman, G. (2016). Que emoção! Que emoção?. São Paulo: Ed. 34, Col. Fábula