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.GRÃO.

por Adolfo Caboclo e Inês Moura

2024

Texto curatorial exposição individual GRÃO - Doppo - Coimbra

Iniciamos Junho, o primeiro mês de Verão, com Lilian Walker (Americana, São Paulo – 1994) e a exposição “.Grão.” onde a artista apresenta parte das suas instalações da série “Atrito”.


Falamos de verão pois esta exposição leva-nos a um profundo olhar e sentir da pele, esse órgão dinâmico que se arrepia, respira, sua, veste e cobre toda a superfície do nosso corpo. O corpo, elemento fulcral para Walker desde o início das suas pesquisas visuais, é matéria e lugar, mapa e raíz, desenho-cenário, a partir do qual a artista  explora as relações: paisagem / corpo; paisagem / pele;  superfície / corpo.


Em seus trabalhos mais recentes estas relações duais são apresentadas de forma mais evidente, entre um elemento estruturante e outro que o embrulha – o corpo e a pele, a fruta e a casca, o planeta e a crosta.


Ao reflectir sobre a sua relação com a arte, a artista dá-nos a ver que as superfícies, tal como a epiderme, são apenas a primeira camada, aquela que alcançamos pelo olhar da contemplação. Mas a arte pede mais, como o desejo de adentrar-se, experimentar e desafiar os limites do que reveste.


De um ponto de vista lacaniano, o desejo é o indicativo da falta. “Atrito” pode então representar um convite: posso te conhecer pelo toque?


É através desse toque que a artista vai conhecendo e se dá a conhecer também por esta cidade. No cuidado com que observa as suas paredes, as suas rachaduras, as linhas topográficas que concebem o seu manto.


Nas paredes da DOPPO, Lilian Walker remete-nos para um elemento típico local, o azulejo, revestimento tradicional das fachadas do casario português, aqui reinterpretado através de outros materiais – a fotografia, a pintura, ou o desgaste da lixa, num jogo de sobreposições sobre a pele, que ora se desvenda ora se cobre. No processo de criação destas composições angulares, os cortes oblíquos e límpidos em contrastes de cor, complementam o desenho, que aqui é assumido como ação modeladora da matéria, em gestos que rasgam, amassam ou friccionam os fragmentos da composição.


Tal azulejaria, também pode ecoar com algo da essência do trabalho de Adriana Varejão (Rio de Janeiro, 1964). Na obra da artista carioca, os azulejos sangram de forma visceral enquanto que na obra da artista de Americana, eles remetem a uma casca a anunciar a cicatrização de um grande corpo.


Em “.GRÃO.” Lilian Walker fala do toque e da superfície onde uma espécie de carne e ossos se fazem de estrutura. Anuncia traumas, estes dinamizados pelas texturas evidenciadas pela dobra de luz e sombra.


Cada um desses traumas, faz dos fragmentos de suas instalações objetos únicos. Contaminados pela vida e proponentes de uma poética que busca adensar-se pela cidade.

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